O Brasil vive uma crise humanitária escancarada nas ruas de suas cidades. A população em situação de rua cresce em um ritmo alarmante, tornando-se um dos maiores desafios sociais do nosso tempo. Esse fenômeno não surgiu do nada, tampouco é um “problema individual” de quem está nessa condição. A questão é estrutural, histórica e atravessada por fatores sociais, econômicos e, principalmente, raciais.
A face negra da pobreza e da rua
Os dados não mentem: a população de rua no Brasil é majoritariamente negra. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), mais de 70% das pessoas em situação de rua se identificam como negras. Esse dado não pode ser ignorado. Ele revela a continuidade de um sistema excludente que remonta ao período pós-abolição, quando a população negra foi abandonada à própria sorte, sem políticas de reparação, sem acesso à terra e ao trabalho digno. O que restou? Marginalização, exploração e uma luta diária para sobreviver.
O racismo estrutural também se expressa no sistema prisional. O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, e mais de 65% dos presos são negros. Grande parte dessas pessoas, ao sair da prisão, não encontra oportunidades de reinserção social, tornando-se parte da população de rua. Ou seja, a rua e a prisão são duas faces da mesma moeda da exclusão.
Além disso, a pobreza extrema e a insegurança habitacional atingem de forma desproporcional a população negra. Nas periferias, nas vilas e favelas, são os negros que vivem abaixo da linha da pobreza, enfrentando desemprego, fome e violência policial. A população de rua, portanto, é o retrato vivo de uma dívida histórica que o Brasil ainda se recusa a pagar.
Por que as pessoas vão para a rua?
Em Contagem, segundo o último censo, 90% das pessoas em situação de rua não querem estar nessa condição. Se perguntarmos a elas qual é o maior sonho, a resposta será: sair das ruas. Mas sair da rua para onde? O que falta para que essas pessoas consigam reconstruir suas vidas? Quando questionadas sobre os motivos de estarem ali, as respostas revelam uma realidade muito mais complexa do que o senso comum costuma acreditar.
1. Perda de vínculos familiares
A maioria relatou que foi para a rua porque perdeu seus vínculos familiares ou nunca teve uma família. Um exemplo disso é a história de Pandora, uma mulher trans que foi encontrada ainda bebê dentro de uma lata de lixo. Adotada por uma mulher que tentou lhe dar uma casa, ela sofreu abusos e preconceito até a adolescência, quando acabou indo para a rua. Para muitas pessoas, a rua é o último refúgio depois de uma vida inteira de rejeição e sofrimento.
2. Falta de trabalho e renda
Outra resposta frequente foi a dificuldade em encontrar trabalho. O professor André, da UFMG, que coordena o Observatório da População de Rua, destacou que uma grande parte dessas pessoas não concluiu o ensino médio e muitas sequer foram alfabetizadas. Sem qualificação, tornam-se invisíveis para o mercado de trabalho.
Mesmo quando há vagas, há uma barreira social para quem já passou pela rua ou pelo sistema prisional. O preconceito impede a reintegração, tornando a pobreza um ciclo sem fim.
3. Dependência química
Por fim, um dos fatores que mais mantém as pessoas nas ruas é o uso abusivo de álcool e outras drogas, principalmente crack, cocaína e álcool. É importante destacar que, na maioria dos casos, a dependência química não foi a causa inicial da situação de rua, mas se torna um fator que dificulta a saída dela. Sem acesso a tratamento adequado, essas pessoas ficam presas em um ciclo de destruição.
Um ciclo de morte e exclusão
O fenômeno da população de rua não pode ser reduzido a escolhas individuais. Trata-se de um sistema que empurra os mais pobres para fora da sociedade. O Brasil construiu ao longo dos séculos um ciclo vicioso: miséria, exclusão, criminalização, prisão e rua.
Romper esse ciclo exige políticas públicas reais, eficazes e humanizadas. Não basta apenas remover barracas ou proibir a doação de comida, como alguns governantes tentam fazer. É preciso moradia social, programas de renda mínima, educação inclusiva, tratamento para dependentes químicos e políticas de reinserção profissional.
A população de rua é um reflexo da nossa história, mas também pode ser um ponto de virada para o futuro. Enquanto tratarmos essas pessoas como um problema a ser varrido para debaixo do tapete, continuaremos perpetuando a injustiça. Mas se enxergarmos nelas a nossa própria humanidade, talvez possamos construir uma cidade e um país onde ninguém precise mais chamar a rua de casa.
Kaká Menezes é ex-jogador de basquete profissional, pastor, teólogo e cientista político.